Inclinação dos futuros da soja e o impacto na precificação no interior! Quais os fundamentos por trás desse movimento?

Inclinação dos futuros da soja e o impacto na precificação no interior! Quais os fundamentos por trás desse movimento?

Os futuros da soja na bolsa de Chicago tiveram um fechamento estável na última semana, que apesar de curta, foi muito movimentada e cheia eventos importantes para a agenda do agronegócio mundial. No acumulado semanal, o futuro com vencimento março de 2021 acumula queda de 6 centavos, registrando níveis mínimos de US$ 13,60 e máximas de US$ 13,95 durante os três pregões.

Na última sexta, os futuros da oleaginosa registraram altas superiores a 10 centavos, com máximas próximas a US$ 13,88, porém sem força para romper novas altas na semana. O patamar de US$ 14,00 continua sendo um nível de resistência muito substantivo para os futuros março e maio 2021, cujo motivo de rompimento certamente será a continuidade na piora dos mapas climáticos de 10 a 15 na região central da Argentina, fruto do fortalecimento do fenômeno La Niña ao longo desta semana.

Entretanto, olhando para frente, no acumulado mensal, podemos notar um ganho expressivo na ponta longa da curva dos futuros, sobretudo nos vencimentos referência safra 21/22 em relação aos futuros 20/21.

Os futuros com referência da safra nova 2022 acumulam expressivos ganhos no mês, diminuindo o diferencial da “rolagem” entre safra velha e safra nova, comumente chamando de “carry” ou “inclinação da curva”.

A AgResource Brasil acompanha de perto essa dinâmica, pois é um indicador de mudança significativa na estrutura a termo dos futuros, respaldada pelos fundamentos de aperto na oferta e demanda aquecida para a temporada 21/22, os quais falaremos com maiores detalhes mais adiante.

Estrutura a termo da curva dos futuros

A maior ou menor inclinação (futuro longos > curtos) ou inversão dos futuros (futuros longos < curtos) nos indica a atual situação dos fundamentos de oferta e demanda do mercado, ao passo que o efeito de segunda ordem certamente é refletido na precificação do soja futuro na paridade de exportação e nos basis.

Fundamentos de redução da inversão

A estrutura a termo dos contratos futuros está diretamente relacionada com os fundamentos de oferta, nesse caso hoje sensivelmente exposta ao desenvolvimento das lavouras de soja do hemisfério sul e ao estoque final projetado das principais origens para a temporada 21/22.

Oferta e demanda EUA

Do lada da oferta, o USDA trouxe em seu fórum anual as primeiras estimativas de área, produtividade e estoques finais para a temporada 21/22. Apesar de trazer um aumento marginal na oferta total de soja, estimamos ser pouco impactante essa projeção para trazer mudanças no estoque final 21/22.

Levando em considerações a linha de base do USDA, o estoque/uso anual para a temporada 21/22 subiria marginalmente, para um percentual de 3,2%, contra 3,1% na atual temporada 20/21.

Estoques exportadores

O consumo global projetado ao longo dessa temporada, que hoje supera a oferta mundial de soja, não pode permitir novas reduções de oferta no hemisfério sul, sem um racionamento de demanda. Os estoques do G3 (Brasil, Argentina e Estados Unidos) projetam o menor estoque/uso dos últimos 24 anos!!

Demanda por farelo

A Associação Nacional dos Processadores de Óleos Vegetais (NOPA) dos EUA divulgou um novo recorde de processamento, fruto da demanda aquecida para esmagamento, atendendo não apenas um mercado de exportação, assim como um consumo doméstico sustentado pelas fortes margens da suinocultura, devido à valorização do preço do suíno na CME e no mercado físico americano.

O total exportado de carne suína nos EUA é o maior da história, equivalente a 113% o ritmo de carne suína embarcada na temporada passada. A forte demanda por exportação e abates suínos levaram os contratos de suíno magro na CME a atingirem seus maiores níveis dos últimos 7 anos, garantindo demanda para o consumo de farelo doméstico competindo com a exportação e encarecendo os prêmios FOB Golfo.

Argentina – O fiel da balança para essa temporada

A Argentina responde por quase metade das exportações globais de farelo de soja, sendo o grande player na exportação. Em 2020, o país processou apenas 36,850 milhões de toneladas de soja, contra aproximadamente 41,300 milhões de toneladas em 2019 (o seu menor volume de esmagamento desde 2013).

Esse efeito foi suficiente para manter a curva dos futuros assim como dos prêmios FOB portos argentinos em inversão (backwardation) ao longo de todo o quarto trimestre de 2020 até agora.

O reflexo dessa redução de disponibilidade vem sendo projetado no balanço de oferta e demanda mundial do farelo, onde, de acordo com o Departamento de agricultura dos Estados Unidos (USDA), teremos ao longo da temporada 20/21, apenas 13 dias de estoque disponível para consumo.

Neste momento, uma quebra da soja da Argentina traria uma escassez avassaladora na disponibilidade de farelo ao redor do globo, maior inclusive na qual observamos na última grande quebra da temporada 17/18, tendo como efeito prático, a “exportação” de margens de esmagamento positivas para países como o Brasil, EUA e União Europeia.

Precificação no interior

Apesar da queda dos prêmios nos portos terem pressionado as cotações da soja no interior, acreditamos que esse efeito é muito limitado, visto o alto percentual já vendido no interior, superior a 70% no Brasil.

No nosso cálculo, levamos em consideração apenas o prêmio FOB Portos, excluindo o basis local interno, por se tratar de uma indicação teórica e com pouca validade para o mercado atual. Podemos ver o efeito de como a inclinação gradual na soja vem impactando a diferença entre a rolagem da soja 21 para a soja 22.

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