Produção de biocombustíveis deve dar suporte aos preços da soja em Chicago; entenda até quando!

Produção de biocombustíveis deve dar suporte aos preços da soja em Chicago; entenda até quando!

Os futuros da soja na bolsa de Chicago caminham para fechar o mês de fevereiro com expressivos ganhos acumulados, superiores a 40 centavos para os principais vencimentos. O movimento contraria a sazonalidade do período, típica de ausência de demanda chinesa, margens de esmagamentos negativas e início da colheita no hemisfério sul.

A despeito de todos os fundamentos baixistas, os futuros da soja em Chicago conseguiram recuperar nos últimos dias o importante patamar técnico de US$ 13,80 por bushel, muito importante para dar continuidade a escalada altista do grão no mercado e romper os níveis de US$ 14,00.

O pano de fundo para a continuidade de fortalecimento dentre outros fundamentos, é a robustez da tendência altista dos futuros do óleo de soja.

Antes de adentrarmos na análise sobre este produto, vamos abordar o complexo de óleos vegetais como um todo, analisando pontos importantes de desabastecimento na Índia, Europa e principais exportadores da matéria prima, sobretudo no consumo do programa de produção de biodiesel no mundo. 

Produção e consumo de óleos vegetais

Estoque/uso global e produção

Como podemos ver abaixo, o fortalecimento dos óleos vegetais é antes de tudo a menor disponibilidade de estoques de biodiesel nos principais polos consumidores. 

O estoque/uso atual para a nova temporada nos projeta apenas 40 dias de estoque disponível para consumo estimado dentro da atual temporada, que começou em outubro do ano passado e acabará em setembro deste ano.

Produção de biodiesel

Apesar da retração global diante do impacto da Covid-19, que não permitiu o alcance do mandatório por lei em muitos países, devido às margens negativas nos principais blends (mistura de diesel com óleo vegetal), à retomada da atividade econômica global e à apreciação superior a 50% no preço do petróleo desde novembro, projetamos um rápido crescimento da produção e consumo de biodiesel global. 

Isso dá sustentação para o consumo de óleos vegetais ao redor do globo, projetando uma escassez recorde para a matéria prima, cujo efeito será um aumento no crush global (esmagamento) de oleaginosas 

Biodiesel – cenário para 2021

Os mandatórios de biodiesel, endossados e implementados por lei através das agências reguladoras nas principais origens será o principal vetor de crescimento e sustentação dos óleos vegetais para 2021. Na Argentina, a partir de abril teremos o início do B10, que obriga a mistura de 10% de óleo de soja no B100. 

No Brasil, o aumento do B12 para o B13 fará com o que o Brasil corra o risco de ser um importador líquido de óleo de soja, diminuindo qualquer possibilidade de ser um exportador considerável. A estimativa é que o consumo de óleo de soja para biodiesel supere pela primeira vez na história o uso do óleo refinado. Somente em 2020, o total consumido do produto como matéria prima para o biodiesel foi de 72%, superando 3,8 milhões de toneladas.

Europa – Aumento na participação global de produção de biodiesel

Contextualizando, a União Europeia é o maior produtor e consumidor de biodiesel do mundo, sendo responsável por mais de 32% de toda a produção mundial, projetada em 47 milhões de toneladas de produção global nessa temporada. 

Como produtor, o bloco produz anualmente cerca de 15,20 milhões de toneladas de biodiesel. Para esta produção os europeu consomem anualmente entre 6 milhões de toneladas de óleo de canola, 4 milhões de toneladas de óleo de palma e menos de 1 milhão de toneladas de óleo de soja. 

Entretanto, nesta temporada que inicia em junho, a produção de canola na UE será a menor da história, sendo produzido apenas 17,09 milhões de toneladas, uma redução significativa de 15% em relação à temporada 19/20. Todavia, a canola é utilizada como blend somente no inverno europeu, que acaba próximo ao segundo trimestre deste ano. 

O Canadá, atualmente maior exportador de canola, está no final da sua temporada, possuindo estoques baixíssimos para atender a demanda europeia, que busca sobretudo variedades não GMO (não geneticamente modificadas) para processamento local. 

Com isso, somente a Austrália terá uma grande safra esse ano, com aumento de 70% na produção de canola e poderá atender esse mercado, previsto apenas para o segundo semestre do ano.

Após a entrada do verão, as indústrias buscarão o abastecimento do óleo de palma e soja, por serem uma matéria prima mais barata apesar de possuírem um ponto de entupimento de filtro menor.

Óleo de palma – Aumento do spread entre os óleos dá sustentação ao óleo de soja

Os futuros do óleo de palma na Malásia e Indonésia subiram consistentemente desde a virada do ano, fruto de um maior consumo local devido ao início do B30 na Indonésia e maiores tarifas de exportação na Malásia (principal exportador da matéria prima), fato que levou o país a ter uma redução significativa no volume exportado.

Para corroborar com o aperto na disponibilidade, a Malásia produziu de outubro a janeiro apenas 5,68 milhões de toneladas de óleo de palma, o menor nível dos últimos 10 anos. Isso impulsionou os preços FOB portos e refletiu nos futuros do óleo de palma na bolsa da Malásia, que acumulam alta superior a 10% desde o começo do mês. 

Esse ritmo de queda na produção tende a perdurar, dando sustentação aos preços do óleo de palma, visto que entre fevereiro e março, sazonalmente muitas palmeiras entram em descanso, reduzindo o ritmo de produtividade. 

Atualmente o óleo de palma CIF Roterdã está próximo de U$ 1.100 t/m, mesmo valor que o óleo de soja do Golfo CIF portos europeus. Entretanto, o diferencial entre o óleo de canola para o óleo de soja passa de U$ 200,00, tornando mais do que viável a substituição para o óleo de soja ao invés do de canola. Será inevitável uma importação maior de biodiesel argentino.

Óleo de soja e oilshare

Na escalada dos fundamentos que falamos acima, os futuros do óleo de soja na CBOT atingiram o maior nível dos últimos sete anos. Esse cenário precifica a escassez severa de óleo de soja na Argentina, dado sua queda no esmagamento do ano passado, que foi de apenas 35.86 milhões de toneladas, o menor nível desde 2013.

Isso significa, por exemplo, que somente em dezembro foram produzidas 156 mil toneladas de óleo de soja, contra 543 mil toneladas em dezembro de 2019.  Devemos lembrar que a Argentina representa mais de 50% de toda exportação global de óleo de soja, além de ser o principal exportador do SME, que é o éster metílico de óleo de soja

Essa escassez projeta uma maior dependência de processamento de outras origens, entre elas o Brasil e os EUA, para atender importadores, sobretudo na União Europeia, que dependerá ou do óleo de soja ou de palma no segundo trimestre.

Sendo assim, será inevitável que a União Europeia busque um racionamento maior na demanda dos óleos vegetais, caso contrário será preciso uma forte importação, que hoje apenas pode ser suprida pela Argentina.

Uma quebra na safra de soja na Argentina e continuidade de queda no processamento e exportação de biodiesel para o continente europeu será o vetor para continuidade do fortalecimento do óleo de soja na CBOT e FOB portos consequentemente. 

Conclusão

Acreditamos que o fortalecimento dos óleos vegetais continue até abril/junho quando teremos o restabelecimento de disponibilidade de oleaginosas para esmagamento, seja de óleo de palma no sudeste asiático ou de óleo de soja no hemisfério sul. Pelas nossas estimativas, os estoques de óleos vegetais só retomarão um nível ofertado dentro de 4 a 6 meses.

Portanto, continuaremos muito provavelmente, a observar um forte descolamento dos preços do óleo de soja FOB portos, e consequente sustentação dos preços dos futuros na CBOT.

Abaixo, temos o gráfico do oilshare, que demonstra a participação hoje do óleo de soja na formação do preço da soja na CBOT.

Oilshare diário

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